Conheça Brumadinho através de seus empreendedores e artistas locais: a cerâmica que dá forma à cidade
Este é o primeiro de uma série de artigos que convida o viajante a desacelerar e conhecer Brumadinho pelas mãos que constroem seu território: artesãos, famílias e produtores que guardam saberes há gerações. Uma jornada de slow travel e consumo consciente que começa no barro.

Há destinos que se descobrem em uma tarde e destinos que se revelam aos poucos, viagem após viagem. Brumadinho é do segundo tipo. Entre a Serra da Moeda e o Paraopeba, essa região guarda muito mais do que paisagem: guarda gente. São famílias que aprenderam um ofício com quem veio antes, produtores que sustentam saberes há gerações e artesãos que transformam a argila da terra em identidade.
Neste artigo, o convite é para desacelerar. Trocar o roteiro cheio de pontos turísticos por um encontro de verdade com as pessoas que fazem Brumadinho ser o que é, a começar por uma das tradições mais marcantes do município: a cerâmica
A cerâmica, um fio condutor da identidade de Brumadinho

Poucos visitantes sabem, mas Brumadinho é um dos pólos ceramistas mais expressivos de Minas Gerais. Ao longo de décadas, artistas se instalaram na região, muitos deles atraídos pela argila de qualidade encontrada nas terras da Serra da Moeda, e transformaram o ofício em modo de vida, transmitindo técnicas de mãos em mãos, de mestre para aprendiz.
Visitar um ateliê de cerâmica em Brumadinho é, na prática, entrar na história pessoal de quem está por trás da peça: o tipo de forno usado, a origem da argila, o traço autoral que carrega influências de quem ensinou aquele artista anos atrás. É um tipo de experiência que nenhuma vitrine de loja consegue oferecer.
O Instituto Toshiko Ishii: um novo capítulo dessa história

Um dos capítulos mais recentes, e mais emocionantes, dessa tradição ganhou forma neste ano, com o lançamento do Instituto Toshiko Ishii, no Moinho do Vale da Serra da Moeda.
A história começa décadas atrás. Nos anos 1970, a ceramista japonesa Toshiko Ishii chegou ao Vale da Serra da Moeda. Aos 70 anos, depois de encontrar cerâmicas antigas nas terras da fazenda onde se instalou, decidiu estudar cerâmica tradicional japonesa. Autodidata, passou a produzir e, principalmente, a ensinar a técnica, formando gerações de ceramistas na região e criando uma escola informal que ainda hoje molda a identidade artesanal de Brumadinho.
Para dar continuidade a esse legado, duas famílias se uniram: Nao Yuasa, neta de Toshiko Ishii, e Júlio Souki Amaral, filho de Adel Souki, discípula e amiga da artista. Juntos, criaram o Instituto Toshiko Ishii, uma entidade sem fins lucrativos dedicada a projetos culturais e comunitários no Vale.
Em entrevista ao jornal O Tempo por ocasião do lançamento do Instituto, em agosto de 2026, Nao Yuasa contou que sua avó chegou ao Vale sem conhecer ninguém e foi acolhida de braços abertos pela comunidade, e que retribuía esse acolhimento ensinando tudo o que aprendia. Para ela, o Instituto é hoje a forma que a família encontrou de dar continuidade a esse espírito.
Entre as iniciativas do Instituto estão:
Aprendiz de Cerâmica: formação com bolsa para moradores da região a partir de 15 anos, garantindo que o ofício continue sendo passado adiante;
Moinho comunitário: disponibilizado gratuitamente para produtores locais moerem seus próprios grãos;
Feira do Moinho: encontro mensal que reúne cerâmica, bordado e produção local;
Apoio às Bordadeiras da Serra da Moeda: valorizando outro saber manual profundamente enraizado no território.
Como resume Júlio Souki Amaral na mesma reportagem, a região já reunia ceramistas, bordadeiras, produtores e jovens talentosos, o papel do Instituto é justamente dar estrutura para que esse potencial continue crescendo.
Os ceramistas que guardam esse saber
Por trás de cada peça de cerâmica vendida em Brumadinho existe uma pessoa, muitas vezes, uma vida inteira dedicada ao ofício. Conheça algumas dessas trajetórias:

Nascida em Sabará (MG), em 1944, Erli Fantini formou-se em Escultura pela Escola de Belas Artes da UFMG em 1971, onde vive até hoje. Estudou cerâmica com Celeida Tostes e Megumi Yuasa, e desenho com Luiz Paulo Baravelli, além de ter passado pelo Ateliê Núcleo Artístico, sob orientação de Amílcar de Castro. Ao longo da carreira, recebeu prêmios como o 1º lugar no Salão de Escultura de Curitiba (1993) e o Prêmio de Aquisição da Secretaria de Estado no 3º Salão de Arte Contemporânea de Belém (1994), além da Medalha de Honra da UFMG, em 2005.
Foi Erli quem idealizou, em 1999, a Feira de Cerâmica de Belo Horizonte, evento que coordenou por muitos anos e do qual hoje participa como convidada especial. Desde 1975, ela recebe alunos em seu próprio ateliê para cursos de técnica em cerâmica, uma oportunidade de aprender diretamente com quem ajudou a consolidar a cena ceramista mineira.

Às margens do Ribeirão Piedade, em meio a um refúgio de Mata Atlântica, fica o Ateliê Saracura Três Potes. Ali, o trabalho nasce da tentativa de traduzir a flora e as memórias brasileiras, não de copiar formas, mas de se aproximar da lógica de uma cabaça, da textura da orelha-de-macaco, da resistência das cascas que guardam a vida na mata. Cada peça carrega vestígios do lugar onde é feita.
A filosofia do ateliê é a da escuta: o barro tem vontade própria, e o trabalho acontece no ajuste contínuo entre água, ar, terra e fogo, os elementos que decidem, no fim, o que permanece. Quem visita não vem apenas ver peças prontas: vem para o encontro, para a conversa em torno das quitandas locais, para sentir a argila deixando de ser matéria bruta e se tornando forma entre os dedos.
Ateliê Cerâmica Raiz, Cecília e Lenine

Na Encosta da Serra da Moeda, o Ateliê Cerâmica Raiz está aberto para visitação e vivências, sempre mediante agendamento. Os ceramistas Cecília e Lenine apresentam todo o processo de produção da retirada da argila até a queima das peças, incluindo uma parada pelo forno catenário e pelas diversas técnicas de feitura da cerâmica. Para fechar com chave de ouro, a visita termina com um café mineiro servido nas próprias cerâmicas produzidas no local.
Conhecer esses ceramistas é uma forma de turismo que vai muito além de comprar uma peça de recordação. É sentar para conversar, entender o processo, ouvir a trajetória de quem escolheu, ou herdou, esse caminho. Muitos artistas recebem visitantes em seus próprios ateliês mediante agendamento, o que torna a experiência ainda mais pessoal e exclusiva.

Na Pousada Estalagem do Mirante, a ceramista Eny Amorim recebe visitantes em seu próprio ateliê, de frente para um dos pores do sol mais bonitos de Brumadinho. No local, ela apresenta parte da sua produção diversificada, entre peças utilitárias e decorativas, e convida quem visita a acompanhar o processo de queima em forno de Raku, em uma troca de saberes que acontece com a paisagem do Céu de Montanhas como pano de fundo.

Conduzida pelo casal Nana e Yuri, a Nanart une cerâmica e gastronomia em um espaço com jardim externo e área gourmet dedicada aos quitutes de Brumadinho. Dentro da loja, é possível encontrar tanto peças produzidas pela própria Nana quanto trabalhos conceituais de artesãos mineiros e de outros estados, uma experiência que também integra o Catálogo Céu de Montanhas.
Conhecer esses ceramistas é uma forma de turismo que vai muito além de comprar uma peça de recordação. É sentar para conversar, entender o processo, ouvir a trajetória de quem escolheu, ou herdou, esse caminho. Muitos artistas recebem visitantes em seus próprios ateliês mediante agendamento, o que torna a experiência ainda mais pessoal e exclusiva.
Slow travel: o convite para desacelerar

Conhecer Brumadinho através de suas histórias e personagens locais é, na prática, praticar o slow travel: menos pressa, mais presença. É trocar o check-in rápido em um ponto turístico pela conversa demorada com quem faz aquele lugar existir.
Na prática, isso significa:
Priorizar visitas agendadas a ateliês de cerâmica em vez de compras rápidas e impessoais;
Participar de feiras locais, como a Feira do Moinho, onde é possível encontrar cerâmica, bordado e produtos agroecológicos direto de quem produz;
Perguntar a história por trás de cada peça, quase sempre, ela existe, e vale a pena ser ouvida;
Dar preferência a pequenos negócios e produtores familiares, que são o verdadeiro motor da economia criativa do território.
Esse tipo de consumo consciente não beneficia apenas o viajante, que leva para casa uma experiência genuína. Ele fortalece diretamente às famílias e comunidades que sustentam essas tradições vivas muitas delas há mais de meio século.
Brumadinho se revela em cada história

Cada peça de cerâmica feita à mão em Brumadinho carrega uma história de pertencimento, aprendizado e resistência cultural. Ao visitar o município com esse olhar, o viajante não apenas conhece um destino, ele se conecta com as pessoas que o constroem, dia após dia, geração após geração. E essa é só a primeira parada de uma série que vai revelar, aos poucos, os diferentes segmentos que dão identidade ao território.
Pronto para conhecer Brumadinho através de suas histórias? Acesse o site do Experimente Brumadinho e planeje uma viagem que vai muito além do óbvio. Para descobrir mais artistas, ateliês e novidades da região, siga o perfil do Experimente Brumadinho no Instagram!








